Você que trabalha em um “desk job”,  já fez as contas de quanto tempo por dia você passa numa cadeira? Pesquisas recentes apontam que, entre jornada de trabalho, tempo ao volante, e tempo em casa em frente à televisão, passamos em média 12 horas por dia sentados.

O resultado cumulativo dessas horas se tornou assunto do momento para os médicos e pesquisadores interessados nos efeitos nocivos da vida sedentária, e diversos estudos já sugerem correlações entre sedentarismo e obesidade, hipertensão, diabetes, e doenças do coração.

“O que me impressiona é que nós seres humanos evoluímos por mais de 1.5 milhões de anos na capacidade de andar e se movimentar. Literalmente 150 anos atrás, 90% da atividade humana era na agricultura.

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Em um período curtíssimo de tempo nos tornamos reféns das cadeiras.”, ressalta o médico James A. Levine, especialista em obesidade na Mayo Clinic.

Hoje, problemas como dores nas costas, musculatura rígida, dificuldade de perder peso, e hipertensão são extremamente comuns entre profissionais que passam o dia em frente ao computador.

Existe atualmente um consenso entre a comunidade médica sobre a idéia de que o corpo humano não foi concebido para permanecer mais de 8 horas por dia na posição sentada, e diversos estudos alertam que o hábito de passar longos períodos numa cadeira já é considerado um risco à saúde pública.

No entanto, a solução não está em correr para a academia depois do trabalho. Uma pesquisa da Universidade de Sydney identificou que os danos à saúde resultantes das horas sedentárias existem mesmo para os indivíduos que costumam praticar atividades físicas regularmente.

 

infográfico o mal da cadeira

 

Este assunto recentemente se tornou tema de preocupação para grandes empresas do vale do Silício, como Apple, Google, e Facebook; mesas com regulagem de altura estão se tornando marca nestas empresas de vanguarda.

O Google já oferece este tipo de mesa como parte de seu programa de bem-estar, e existem relatos que o Facebook já tem mais de 250 colaboradores trabalhando em estações que permitem ajuste de altura. Aqui no Brasil, a Apple recentemente adquiriu mais de 200 mesas de escritório com altura regulável.

Conheça a seguir alguns riscos à saúde que você pode eliminar trabalhando mais tempo em pé:

 

1.Obesidade

Um estudo conduzido em 2013 pelo médico John Buckley da Universidade de Chester, revelou que quando estamos sentados nosso coração bate em média 10 vezes a menos por minuto, o que significa uma queima de 0,7 Kcal a menos por minuto.

Não parece muito, mas a diferença chega a 50 Kcal por hora. Comece a trabalhar em pé 3 horas a mais por dia, e serão 750 Kcal  a mais queimadas em uma semana de trabalho. Durante o período de um ano, esse montante chega a 30.000 Kcal, equivalente a 3,6 Kg de gordura.

“Em termos de níveis de atividade, este valor energético equivale a 10 maratonas por ano”, Buckley afirma. Em outro estudo conduzido pelo Endocrinologista James Levine, os participantes se submeteram a uma dieta individualizada por um período que levou cada participante à atingir um peso estável.

Em seguida, os participantes receberam uma nova dieta com incremento de 1000 Kcal, combinada com restrição de exercícios físicos.

Ao final do estudo, alguns dos participantes ganharam alguns kilos, enquanto outros ganharam pouco ou nenhum peso. O chefe do estudo, Dr. Levine, observou que os participantes que não apresentaram aumento de peso ficavam em média 2 horas a menos sentados do que os colegas que tiveram aumento de peso.

Levine relatou que atividades simples como andar até a mesa do colega ao invés de mandar um email, ou subir de escadas ao invés do elevador fizeram toda a diferença para os participantes.

 

2. Problemas cardiovasculares

O Dr. James Levine aponta que trabalhar sentado por períodos prolongados causa uma redução na atividade da enzima lipoproteíca lipase, que tem papel central na quebra de lipídios e triglicerídios no sangue. Estas enzimas são responsáveis por “aspirar” a gordura do sistema sanguíneo.

A redução da atividade enzimática provoca um aumento da presença dos triglicerídios no sangue, que por sua vez aumenta a formação de placas de gordura nas artérias – as causadoras das doenças do coração. Após duas horas sentado, o nível do colesterol bom, que evita a formação de placas de gordura nas artérias, diminui em 20%.

 

3. Síndrome Metabólica

Pesquisadores da Universidade de Leicester identificaram associação entre o hábito de permanecer sentado por longos períodos com o desenvolvimento de síndrome metabólica. Ao ficar muito tempo numa cadeira, a atividade elétrica dos músculos das pernas e dos glúteos diminui significativamente.

Segundo os pesquisadores, esta inatividade muscular aumenta em 73% a chance de desenvolvimento de uma série de disfunções como pressão alta, colesterol alto, obesidade, e diabetes tipo 2. As contrações musculares são indispensáveis para a produção das enzimas responsáveis pela quebra de gorduras e açúcares no sangue.

Quando nos sentamos, a atividade muscular nas pernas é interrompida, e como resultado estes processos fisiológicos são prejudicados. Outros estudos sugerem que o nível de atividade física tem impacto na eficiência da produção de insulina pelo pâncreas, hormônio responsável pelo controle da glicose no sangue.

 

4. Redução da expectativa de vida

Alpa Patel, uma médica epidemiologista da organização American Cancer Society, monitorou em um estudo a saúde de 123.000 americanos entre 50 e 72 anos. Os homens que passavam pelo menos 6 horas por dia sentados tiveram uma taxa de mortalidade 20% maior em comparação aos que passavam até 3 horas sentados.

A taxa de mortalidade para as mulheres que ficavam sentadas por 6 horas ou mais foi 40% maior. Patel conclui que, na média, pessoas que passam mais tempo sentadas estão diminuindo alguns anos de vida. Em um outro estudo publicado em 2012 no British Journal of Sports Medicine, conduzido pela Universidade de Queensland, na Australia, apontou que cada hora em frente à TV reduz a expectativa de vida do telespectador com mais de 25 anos em 21.8 minutos.

Segundo os pesquisadores, ficar assistindo televisão ou fazer qualquer outra atividade sentado por mais de seis horas diárias pode diminuir a vida de um adulto em 4,8 anos. 

 

5. Comprometimento da anatomia da espinha dorsal e enfraquecimento da musculatura abdominal

“A cadeira que você está sentado(a) agora provavelmente está contribuindo para o problema”, observa Galen Cranz, professora da universidade da California Berkeley. Ela explica que a espinha dorsal não foi feita para permanecer por longos períodos em uma cadeira. De maneira geral, a forma semelhante a um “S” da nossa espinha dorsal nos serve muito bem.

“Se você imaginar um peso em cima de um “C” ou um “S”, qual deles irá ceder mais facilmente? O “C”, diz ela. Quando você se senta, a curva anatômica da lombar inferior desaparece, transformando a forma natural de “S” da espinha dorsal em um “C”. Desta forma, o corpo fica numa posição desleixada, e os músculos abdominais e das costas crescem mais fracos e menos capazes de exercerem suas funções biomecânicas.

 

6. Doenças Renais

Um estudo inédito com homens e mulheres entre 40 e 75 anos feito pela organização National Kidney Foundation aponta correlação entre tempo sentado e incidência de disfunções renais, principalmente entre mulheres. As participantes que tiveram seu tempo sentado limitado para até 3 horas diárias apresentaram uma diminuição do risco de doenças renais de até 30% em comparação com as mulheres que passavam pelo menos 8 horas sentadas.

Entre os homens, o risco de desenvolvimento de algum tipo de doença dos rins entre os participantes que passavam 8 horas ou mais sentados por dia chegou a 15%.

 

Atividades físicas não reduzem os efeitos nocivos do trabalho sentado

Apesar da prática de exercícios físicos e boa alimentação, os riscos à saúde resultantes do estilo de vida de quem trabalha sentado por muitas horas só podem ser amenizados reduzindo o tempo sedentário durante o trabalho. A solução é se levantar com mais frequência, se alongar, e adotar algumas horas de trabalho em pé com o auxílio de uma mesa com altura regulável.

Hoje, o hábito de permanecer sentado por longos períodos é considerado uma patologia independente, ou seja, uma pessoa que passa mais de 6 horas por dia numa cadeira está fazendo mal à sua saúde, mesmo que ela frequente a academia depois do trabalho.

Para as empresas, reduzir o tempo sentado durante a jornada de trabalho é um investimento na saúde preventiva dos colaboradores, que no médio e longo prazo irão resultar em ganhos de produtividade através da redução do absenteísmo e da melhoria da qualidade de vida.

 

Referências